Merval Pereira Um lugar ao sol
Política

Merval Pereira Um lugar ao sol


A crise econômica ressaltou o papel dos países emergentes na nova organização mundial, e o Brasil assume posição de relevo no contexto internacional, em que passa a ser tratado mais como integrante dos Brics (Brasil, Russia, Índia e China) — o grupo de países definido como os futuros líderes do mundo pela Goldman Sachs — do que como apenas um país da América Latina. O presidente Lula tem sabido aproveitar a importância relativa que o Brasil representa neste momento favorável, e demonstração disso é o prêmio a ser dado pela Unesco a Lula “por suas ações em busca da paz, do diálogo, da democracia, da justiça social e da igualdade de direitos, assim como por sua valiosa contribuição para a erradicação da pobreza e a proteção dos direitos das minorias”.

Trata-se de um dos mais importantes prêmios mundiais para a preservação da paz, e não é coincidência que outras personalidades que receberam a homenagem, como Nelson Mandela, Yitzhak Rabin, Yasser Arafat e Jimmy Carter, tenham sido agraciadas depois com o Prêmio Nobel da Paz.

Lula já esteve entre os indicados para o Prêmio Nobel da Paz, e bem cotado para recebê-lo pelo programa Fome Zero. O escândalo político do mensalão acabou por tirar-lhe a chance. De lá para cá, seu prestígio internacional só fez aumentar, assim como a percepção favorável da opinião pública sobre os programas sociais do governo, como o Bolsa Família.

Lula hoje é uma “persona” política perfeitamente possível de ganhar um Nobel da Paz, especialmente em um mundo em que os líderes emergentes ganham destaque e os líderes “louros de olhos azuis” têm o peso da responsabilidade maior pela crise internacional.

Mesmo que isso não aconteça ainda no seu mandato, se ele permanecer envolvido em atividade pública ligada ao combate à miséria no mundo, estará sempre na lista de possíveis ganhadores.

Mas corre o risco de perder espaço político na ânsia incontida de fazer acordos para ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. A esdrúxula situação de se colocar contra um candidato brasileiro à direção geral da Unesco, para apoiar um polêmico candidato egípcio, o ex-ministro da Cultura Farouk Hosni, que já perdeu o apoio dos Estados Unidos e da França por suas posições radicais contra Israel, é mais uma jogada de risco, no mesmo terreno em que já tivemos problemas com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que cancelou sua visita ao país devido aos protestos que o anúncio de sua vinda provocou.

Um dos temas que têm dominado as discussões nos fóruns internacionais, bem antes até da crise econômica internacional, é a proeminência crescente das economias emergentes no mundo, consideradas fatores de transformação da realidade atual.

O século XXI será marcado por um poder mais difuso, e a potencialidade do Brasil como um poder global nunca esteve tão em evidência, graças aos bons ventos da economia, que está tendo um desempenho razoável mesmo dentro da crise, e à diversidade de nossa matriz energética, que abrange de novos campos de petróleo do pré-sal em águas ultra profundas, que nos colocaria a longo prazo entre os dez maiores produtores do mundo, aos biocombustíveis.

Por seu pioneirismo na nova tecnologia, e por suas vantagens comparativas, como amplidão territorial e clima, e por ter das maiores reservas de água do mundo, o Brasil está no centro do debate internacional nesse setor.

O que temos que fazer para nos firmarmos definitivamente como um dos líderes desse novo mundo multipolar? Quais são nossas vantagens comparativas com os demais emergentes? O fórum do ex-ministro Reis Velloso, que se reúne no Rio na próxima segundafeira, tratará justamente desse tema. De um lado, a idéia de que, no meio da crise global, os Brics, talvez acrescidos do México, passem realmente a constituir um Grupo de Emergentes (G-4 ou G-5), e desempenhem, conjuntamente, um papel relevante no desenvolvimento mundial.

A preocupação do Fórum de Reis Velloso é que o Brasil volte-se para o aproveitamento de oportunidades, estratégicas que surgirão no novo modelo, usando os instrumentos da Economia do Conhecimento (“Economia Criativa”), como Ciência/ Tecnologia, e investimentos em alta qualificação de mão de obra.

Embora as economias sejam semelhantes em tamanho, a rapidez da Índia é maior que a de Brasil e México.

Mas nosso país teria vantagens competitivas a explorar: temos proximidades culturais com a União Europeia e os Estados Unidos; paz nas nossas fronteiras, em contraponto aos problemas da Índia com o Paquistão.

A Índia, que se orgulha de ser a maior democracia do mundo, tem 17 línguas diferentes e 22 mil dialetos.

O Brasil, uma democracia consolidada, tem uma única língua e uma única nacionalidade, diferentemente de Índia, China e Rússia, cada qual com seus problemas de divisões em castas ou disputas regionais.

E temos ativos que são estratégicos em longo prazo, como um dos maiores reservatórios de água do mundo, e fontes de energia como petróleo, gás e alternativas como os biocombustíveis, especialmente o etanol.

Mas temos que correr contra o tempo. Recente artigo de Gert Bruche, publicado pela “Columbia FDI Perspectives”, mostra que está sendo montada o que ele chama de “nova geografia da inovação”, com o surgimento de Índia e China como grandes atores neste mundo.

Também a revista “The Economist” publicou seu ranking de competitividade em inovação que mostra que a China vem ganhando lugar de destaque, crescendo mais do que a Índia, que também cresce, enquanto Rússia e Brasil permanecem estagnados.




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