Yoshiaki Nakano: A guerra cambial e o IOF
Política

Yoshiaki Nakano: A guerra cambial e o IOF


FOLHA DE S. PAULO


Com o vigor do mercado doméstico, poucos se deram conta de que estão roubando empregos dos brasileiros

PAUL KRUGMAN, na Folha de 24 de outubro, critica a "escandalosa política cambial chinesa" de fixar sua moeda em relação ao dólar. Segundo ele, o "mau comportamento da China constitui uma crescente ameaça para a economia mundial", e "a verdade nua e crua" é que "a China está roubando o emprego de outros países".

A verdade é que os EUA desencadearam uma guerra cambial dissimulada com sua política monetária escandalosa de juro zero e de emissão de dólares, inundando as economias emergentes, adquirindo ativos, inflando as Bolsas e apreciando suas moedas. A China, que sabe defender seus interesses estratégicos, pegou carona, alinhando-se com os EUA, interrompendo, com a crise, a sua política cambial de apreciação gradual do yuan, fixando a taxa cambial ao dólar. Portanto, quando o dólar se deprecia ante as demais moedas, o yuan também se depreciará.

Na prática, são bens americanos e chineses desembarcando nos demais países, "roubando emprego", nas palavras de Krugman. Essa emissão de dólares, sem nenhum lastro, nos EUA chegou a triplicar seu estoque logo depois da crise financeira e, neste ano, está em média mais de 100% maior do que no período pré-crise.

A consequência óbvia é a depreciação do dólar, mas essa política monetária não tem efeito sobre o setor real da economia americana, pois não há demanda de crédito porque foi o superendividamento que gerou a crise financeira e o consumidor americano iniciou um longo processo de desalavancagem. Do lado da oferta de crédito, os bancos estão mais cautelosos diante do aumento do calote e da incerteza e acumulam reservas excedentes e ociosas de quase US$ 1 trilhão. Assim, a redução do juro para zero é um subsídio para o sistema financeiro americano que causou a desastrosa crise financeira global e tornou-se na realidade insolvente.

É uma escandalosa política, na qual os EUA estão tentando fazer o resto do mundo pagar a conta da crise e exportando desemprego. A taxa de juros do Fed não precisava ter sido reduzida a zero, pois, nas atuais circunstâncias de crise financeira, o instrumento adequado para evitar depressão e deflação é a política fiscal. Isso é uma imensa transferência de riqueza do resto do mundo para os bancos norte-americanos recomporem seus balanços.

A rigor, quando o Fed emite dólar, que chega como uma enxurrada ao Brasil e aprecia o real, são os exportadores brasileiros que têm suas receitas reduzidas e que estão transferindo recursos para os bancos e especuladores americanos. Os bancos americanos, sentindo que o Fed os socorrerá se houver nova crise, voltaram rapidamente a captar recursos a custo próximo a zero e a especular nas Bolsas de emergentes, criando novas bolhas.

É essa guerra cambial e essa transferência de riqueza que o governo decidiu enfrentar tributando com 2% de IOF a entrada excessiva de capitais. Mas a guerra cambial está apenas começando e, com o vigor do nosso mercado doméstico, poucos perceberam -a não ser a indústria de manufaturados que exporta ou compete com as importações- que estão roubando empregos dos brasileiros.



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